“Amar”

Amar é um verbo curto mas difícil de conjugar (especialmente na primeira pessoa), mais difícil ainda de ensinar!!

Eu amo simplesmente porque amo, e frustrei-me todas vezes que quis explicar o porquê de amar.

Mas amar a quem? Nos convencemos por milhares que só se ama o perfeito, aquele ser pronto que se encaixa na perfeição ás nossas necessidades. É tudo tão errôneo que nem nos apercebemos do egoísmo que é escolher amar um ser impecável. E digo mais, se for tão perfeito que nada lhe possa acrescentar deixe esse ser na perfeição, pois se permanecer  será a única imperfeição nesse enredo.

Eu não sabia amar até precisar de me amar a mim. Reconhecer as minhas imperfeições, me amar como um ser completo  e sem ilusões, o que foi um acto demorado e muito trabalhado. É errôneo pensar-se que amar é por si uma conclusão, amar é um início de vários começos. E amar não é involuntário, o amor é que nem uma criança que nos aparece a frente, ou a chorar ou a sorrir, e nós escolhemos acolher ou deixa-lá estar. Assim, é justo dizer que, amar é antes uma decisão.

Amar, eu me amei o suficiente para me acolher em mim quando achei que não merecia nada; amei-me para me conhecer profundamente e viver comigo; me amei até florescer em mim para mim.

No dia que me amei por inteiro eu pude conjugar o nós num conjunto em que eu me dava sem medo do abandono. Pude amar o outro não para me completar mas para transbordar,  aprendi então que o amor não é dependente de, o amor nem é xitique[1], que o amor é um sentimento que transforma, mas sempre que achei que havia concluído o amor, ele sempre se  reinventava.

O amor é a mais conhecida das canções, o mais lindo dos versos cantados, e ainda assim é o mais misterioso dos sentimentos pois, cada um sente e explica a medida do seu sentir.

Não há fórmula correcta no amor, não existe jeito errado de amar, nós é que vemos amor onde há outro sentimento, o apego, o medo, a paixão, o hábito. O amor não é uma relação que deu certo, ou um plano bem executado. O amor é um sorriso límpido, o amor é a força que faz-nos acreditar na vida e, o amor sabe que a saudade é simplesmente é não saber.

Amar, verbo tão bem cantado, tão pouco vivido.

Vivemos num tempo do aparente, do supérfluo e das águas rasas, queremos sentir sem que outro nos sinta, queremos receber o que não damos. Se parar e pensar, nós só damos o que temos, tem faltado amor nos nossos dias.

Eu amo a vida com o mesmo amor que me amo, e é esse amor que tenho por ti. Sigo dedicando esse amor ao trabalho, aos meus prazeres, e finalmente dissecando-o em prosas abertas.

Maya Angelou dizia que escrevia pelo mesmo motivo que amava, pela infindável ânsia de se explicar para outrem. Eu digo mais, eu amo por não conhecer nada mais autêntico que o amor.

E está não é uma intenção de ensinar amar, sabemos todos amar, estamos esquecidos  que somos seres de amor.

O amar começa no eu – eu me amo, e termina em ti- eu te amo.

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[1] Designação moçambicana para o sistema de poupança  informal e rotativo, cujo integrantes desembolsam determinado valor a um tesoureiro e dependente do modelo, mensalmente se responsabiliza a distribuir o valor a (s) pessoa(s) designadas.

10 thoughts on ““Amar”

  1. Trouxeste no texto uma verdade muito esquecida, o verdadeiro amor começa pelo Amar a si mesmo, só quando nos aceitamos com nossas imperfeições e falhas é que podemos amar um outro ser imperfeito sem cobrar dele a perfeição. Como sempre muito profunda nos seus textos, Amei😍

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  2. Adorei, adorei, adorei..

    Amar a si primeiro com todas as suas imperfeições..
    E esse exercício deve ser feito quando pretendemos amar o outro também..
    Parabéns Deisy👏👏👏

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  3. “amor não é uma relação que deu certo, ou um plano bem executado.”
    Só será capaz de amar quem se amou primeiro… E Quando te amares por inteiro ninguém mais vai te amar pela metade. Não adianta estar aqui a tentar explicar o que é o amor não quero me frustrar. Vamos apenas amar…

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  4. Ai, o amor! Palavra composta por 4 letras, e que representa um grande mistério.
    Dizia um sábio ser que o amor é sofredor, é benigno, não é invejoso, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, tudo crê, tudo espera, etc… ICO 13:4-7.
    Bem dito Ribeiro: “O amar começa no eu – eu me amo, e termina em ti- eu te amo.”
    É um desafio para todos nós aprender o amar, de tal modo que amemos ao próximo como amamos a nós mesmos.

    Que Deus te dê mais inspiração Deisy! 😊

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  5. Querida, escreves com paixão.
    Este texto em particular diz muito sobre a vida actual.
    Gosto da tua reflexão sobre o impecável vs imperfeito.
    “Vivemos num tempo do aparente, do supérfluo e das águas rasas, queremos sentir sem que outro nos sinta, queremos receber o que não damos. Se parar e pensar, nós só damos o que temos, tem faltado amor nos nossos dias”- Pura verdade.
    Congrats e continues assim que vais longe.
    Cpts
    Adelírio

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